Construir ferramentas de sistema sempre foi uma tarefa dominada por C e C++. Durante décadas, essas linguagens ofereceram desempenho praticamente imbatível e acesso direto ao hardware. O problema é que esse poder vem acompanhado de uma responsabilidade enorme: gerenciar memória manualmente, evitar segmentation faults, impedir buffer overflows e garantir que múltiplas threads não acessem os mesmos dados de forma incorreta.

Em projetos pequenos isso pode ser administrável. Em aplicações maiores, porém, a complexidade cresce rapidamente e boa parte do tempo acaba sendo investida na prevenção de bugs difíceis de reproduzir.

Foi exatamente por isso que escolhi Rust.

Rust entrega desempenho equivalente ao de C e C++, mas adiciona um sistema de propriedade (ownership) e empréstimos (borrowing) que elimina uma classe inteira de erros em tempo de compilação. Em vez de descobrir um problema de memória depois que o programa está em produção, o compilador simplesmente impede que aquele código seja compilado.

Esse modelo muda completamente a forma de desenvolver software de baixo nível.

O projeto Flux

No desenvolvimento do Flux, meu gerenciador de arquivos para Linux escrito em Rust utilizando GTK4 e Relm4, percebi rapidamente como essas garantias fazem diferença.

Enquanto implementava operações de leitura de diretórios, monitoramento do sistema de arquivos e atualização da interface gráfica, pude focar na lógica da aplicação sem a preocupação constante com ponteiros inválidos, use-after-free ou data races.

Isso não significa que Rust elimina toda a complexidade. Existe uma curva de aprendizado considerável, principalmente para compreender o sistema de ownership. Porém, depois que esses conceitos fazem sentido, eles deixam de ser um obstáculo e passam a funcionar como um excelente revisor de código trabalhando em tempo integral.

O que aprendi com GTK4 e Relm4

Arquitetura reativa

O Relm4 utiliza uma arquitetura baseada em estado que torna o código muito organizado.

A interface deixa de ser um conjunto de callbacks espalhados e passa a reagir automaticamente às mudanças de estado da aplicação. Para quem já trabalhou com React, Vue ou Elm, a filosofia é bastante familiar.

Essa separação entre estado, mensagens e atualização da interface facilita bastante a manutenção conforme o projeto cresce.

Concorrência sem medo

Outra característica que me chamou atenção foi a facilidade para paralelizar tarefas.

Operações potencialmente demoradas, como listar diretórios contendo milhares de arquivos, podem ser executadas em threads separadas mantendo a interface responsiva.

O mais interessante é que o compilador impede diversos tipos de erros de concorrência antes mesmo da aplicação ser executada. Isso reduz drasticamente a chance de encontrar aqueles bugs intermitentes que aparecem apenas em determinadas condições.

Vale a pena aprender Rust?

Na minha opinião, sim.

Rust não é a linguagem mais simples para começar. O compilador é exigente e, no início, pode parecer que ele está "brigando" com você o tempo todo.

Depois de algum tempo, porém, fica claro que essa rigidez existe justamente para evitar problemas que, em outras linguagens, poderiam aparecer apenas meses depois em produção.

Para quem desenvolve ferramentas de sistema, aplicações para Linux, utilitários de linha de comando, servidores ou qualquer software onde desempenho e confiabilidade são importantes, Rust oferece uma combinação difícil de encontrar em outras linguagens: velocidade, segurança de memória e concorrência segura, tudo sem depender de um coletor de lixo (garbage collector).

Hoje, para esse tipo de projeto, dificilmente eu escolheria outra linguagem.